Importância econômica da cocoicultura no Brasil

Manuel Alberto Gutiérrez Cuenca

No Brasil, a cocoicultura é de fundamental importância, estimando-se que gera emprego e renda no processo de produção, além dos inúmeros empregos indiretos gerados ao longo da cadeia produtiva. Em termos de empregos gerados, estudos na área informam que 1 ha de coco ocupa, em média, 3 pessoas em emprego direto e que cada emprego direto gera 4 empregos indiretos. De posse dessa relação, e considerando a área colhida no Brasil em 2013, que foi de aproximadamente 257.462 ha, tem-se um total de, pelo menos, 772.386 empregos diretos e 3.089.544 empregos indiretos gerados ao longo da cadeia produtiva do coco.

A cultura é importante na formação do Valor Bruto da Produção (VBP) do Nordeste. Em 2011, o VBP da cocoicultura chegou a representar 2% do VBP gerado por toda agricultura nordestina. Se for considerado apenas o VBP gerado pelas culturas perenes, a cocoicultura respondeu, por 10% do total. Devido a sua importância estratégica na década de 70, o governo estimulou essa atividade agrícola, fornecendo crédito rural para operações de custeio e investimento, aprovando incentivos fiscais e modernizando a estrutura física em estradas.

Nas últimas décadas, surgiu no cenário nacional um crescente interesse por parte dos produtores de diversos estados brasileiros pela cultura do coqueiro-anão voltado para atender o mercado de água-de-coco, como por exemplo: Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em virtude das possibilidades reais de mercado. Nesses estados, a cultura do coqueiro passou a constituir-se em mais uma alternativa agrícola, em função da rentabilidade desse agronegócio e a maior proximidade dos grandes centros consumidores, entre outros.

Com a expansão da cultura, o Brasil apresentou, entre 1984 e 2011, um incremento na área colhida de aproximadamente 110 mil hectares, dos quais, estima-se que 83% representados pela variedade de coqueiro-anão, 15% com coqueiro-híbrido e 2% com coqueiro-gigante. O deslocamento da cultura ocorreu, principalmente para o Norte e Sudeste (Tabela 1). Observa-se na tabela que a região Nordeste, em 1985, respondia por aproximadamente 94% da produção e 96% da área colhida com coco, e em 2011, participava com apenas 69,9% da produção e 81,1% da área total colhida. Em contrapartida, somando-se as produções das regiões Norte e Sudeste, observa-se que a participação destas, na produção total, passou de 5,6% para 28,1% entre 1985 e 2011. O aumento significativo tanto no porcentual de produção e, principalmente, de produtividade observado nestas regiões, pode ser atribuído entre outros fatores, à utilização de cultivares mais produtivas e à adoção de novas tecnologias de cultivo.

Tabela 1. Porcentuais de participação regional na produção e área colhida com coco, e evolução da produtividade, entre 1985 e 2011.

Região

Produção (%)

Área Colhida (%)

Produtividade (%)

 

1985

2011

1985

2011

1985

Nordeste

94,4

70,0

96,2

81,1

86,6

Norte

3,8

12,9

2,3

9,9

66,4

Sudeste

1,8

15,2

1,5

7,8

234,1

Fonte: IBGE, 2013.

Importância do coco-seco no Brasil

A exploração do coco-seco no Brasil apresenta grande importância socioeconômica, uma vez que é explorada, predominantemente,  por pequenos produtores com menos de 10 ha, localizados ao longo do litoral do Nordeste. Os frutos são colhidos com um ano de idade de maturação, dos quais se obtém o albúmen sólido, utilizado no consumo in natura ou pela indústria na produção de coco-ralado e leite-de-coco, na fabricação de bebidas, margarinas, ração animal, óleos, álcool graxo, ácido graxo, glicerina, solventes, além de outros produtos. O mesocarpo (parte fibrosa da casca-do-coco) é também um importante coproduto, utilizado na produção de fibras marrons longas e curtas. A fibra, devido às características de elasticidade, durabilidade e resistência à tração e à umidade pode ser utilizada como matéria-prima na agricultura, no controle de erosão, bem como, na fabricação de colchões, bancos de veículos, tapetes, cordas, entre outros, além de substratos orgânicos para uso em floricultura e hortifruticultura. O óleo-de-coco continua a ser a principal fonte de ácido láurico para as indústrias de detergentes e sabões, pelas suas características espumante, bactericida, germicida, e principalmente por ser biodegradável e, portanto, não poluidor do meio ambiente. Atualmente, devido a monolaurina, o ácido láurico passou a ser utlilizado na medicina, no controle dos vírus HIV e da herpes e de diferentes bactérias patogênicas. O ácido láurico é matéria prima para diversos produtos de uso rotineiro na indústria de química fina, cosméticos, domissanitários e até em alimentos, na forma de emulsificantes e estabilizantes naturais. Entra na fabricação de sabões e sabonetes e na produção de derivados, tais como, alcanolamidas ou amidas de ácido graxo de coco, álcool láurico e seus derivados, como o laurilsulfato de sódio e laurato de sorbitano. Todos esses produtos são tensoativos utilizados na indústria cosmética e de higiene pessoal, farmacêutica e domissanitária. A produção nacional de produtos derivados láuricos a partir do óleo-de-coco colocará em uma nova perspectiva de mercado o setor dermocosmético nacional, com maior competitividade na economia globalizada.

Em função das importações crescentes do coco-ralado, realizadas a partir da década de 90, o preço do coco-seco apresentou grande queda, não compensando na maioria das vezes o custo da colheita, afetando também o grau de investimento no setor, provocando diminuição na produção. Aliado a estes fatores, observa-se que os plantios atuais apresentam idade média avançada, estão sujeitos a problemas fitossanitários endêmicos e a déficits hídricos elevados durante grande parte do ano.  Para tentar diminuir as importações, o Sindicato dos Produtores de Coco do Brasil (Sindicoco) conseguiu, em julho de 2002, sensibilizar as autoridades da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX), que, assessorados pelo Comitê Executivo de Gestão (GECEX), aprovou as Medidas de Salvaguardas do Coco, submetendo as importações de coco-seco a cotas estipuladas pelo governo. Estas medidas expiraram em meados de 2012, possibilitando assim o retorno da importação do coco-ralado. Para evitar essa nova ameaça, o SINDCOCO obteve junto ao governo federal a elevação da tarifa externa comum (TEC) de 10% para 55%, a qual incide sobre o produto em sua origem. Mas parece que essa medida do governo não surtiu o efeito desejado, pois, segundo o Sindicoco, o volume de importações do coco-seco ralado desidratado, entre janeiro e outubro de 2014, totalizou 20,5 mil toneladas do produto. Quantidade que representou aproximadamente 77% do consumo nacional aparente no referido período, o que reafirma a potencial ameaça que paira no cenário para a cocoicultura brasileira.

Importância do coco-verde no Brasil

O aumento significativo da demanda por água-de-coco, atribuído em parte ao crescimento da renda per capita e a um estilo de vida mais saudável, exigiu, nas últimas décadas, uma rápida expansão da produção para o atendimento dessa demanda. A utilização do coqueiro-anão, pelo seu alto poder produtivo, foi de fundamental importância para o aumento da produção e da produtividade, o que gerou inúmeras oportunidades de negócios no aproveitamento desse novo nicho de mercado, garantindo maior rentabilidade e atratividade para novos empreendimentos nesse agronegócio.

Estima-se que, atualmente, mais de 85.000 ha se encontram implantados com coqueiro-anão nas regiões brasileiras, o que refletiu no aumento das produtividades regionais. No Nordeste, entre 1984 e 2011, a produtividade e área colhida cresceram, respectivamente, 99% e 42% devido, principalmente, à alta produtividade gerada pelos plantios localizados nos perímetros irrigados nos estados nordestinos. No Sudeste, a produtividade e área colhida evoluíram 233% e 844%, respectivamente, no mencionado período, devido ao fato de os novos plantios realizados a partir de 1980 terem sido exclusivamente com coqueiro-anão. No Norte, a produtividade e área colhida evoluíram respectivamente 59% e 807% em função das condições edafoclimáticas favoráveis à cultura, do uso de cultivares mais produtivas (coqueiro-anão e híbridos) e da adoção de novas tecnologias de cultivo. Na região Centro-Oeste, a cocoicultura sempre se mostrou insignificante. A dificuldade da expansão da cultura nessa região deve-se, principalmente, à predominância das grandes propriedades agrícolas ligadas ao agronegócio; estas, altamente mecanizadas e dedicadas, prioritariamente, à produção de grãos para exportação, bem como as áreas ocupadas pela pecuária.

Tem-se observado nos últimos anos uma grande demanda para exportação da água-de-coco para os EUA e com potencial também para a Europa. Mas, em contrapartida, existe a ameaça do aumento da importação da água-de-coco concentrada, obtida a partir do coco-seco, proveniente de países asiáticos, diretamente para as indústrias nacionais, o que é preocupante por colocar em risco direto a atividade dos produtores de coco-verde no Brasil.

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Ago/2016

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