Solos

Ivonete Berto Menino

Ivaldo Antônio Araújo

Geraldo Magela Leite

A mangabeira ocorre em abundância nas regiões dos Tabuleiros Costeiros e Baixada Litorânea do Nordeste, bem como nas áreas sob Cerrado das Regiões Centro-Oeste, Norte e Sudeste. Essa frutífera cresce com exuberância em solos profundos, arenosos, pobres, com baixa capacidade de retenção de água e com pH entre 4,5 e 6,5.

Um fator importante é que a mangabeira é uma planta semidecídua ou decídua trocando a folhagem no período mais seco do ano. E, principalmente, por vegetarem em solos marginais, os resíduos vegetais favorecem a um acréscimo gradativo de matéria orgânica no solo, melhorando as propriedades químicas, físicas e biológicas nas suas camadas superficiais. Além disso,  favorecem a ciclagem de nutrientes em razão da redução da temperatura do solo, aumento da atividade biológica refletindo numa melhor estruturação do solo e, consequentemente, no fornecimento de elementos nutritivos às plantas.

Ademais, em termos de conservação do solo, a mangabeira, em razão do grande aporte de folhas (manta) depositadas sobre o solo, amortece a energia cinética da chuva e favorece maior infiltração da água. Dessa forma, poderá também, ser utilizada na recuperação de áreas degradadas, permitindo uma utilização autossustentável e o reflorestamento de áreas com baixa capacidade de uso.

A cobertura morta e resíduos culturais caídos na superfície do solo constituem importante reserva de nutrientes. Sua disponibilização pode ser rápida e intensa ou lenta e gradual, conforme a interação entre os fatores climáticos, principalmente a precipitação pluvial e temperatura, atividade macro e microbiológica do solo e qualidade e quantidade do resíduo vegetal (Figura 1).

Fotos: Ivonete Berto Menino

Figura 1. a) aporte da cobertura morta e resíduos culturais da mangabeira formando uma manta na superfície do solo; b) aumento do teor de matéria orgânica. João Pessoa, PB.

Entretanto, com a explosão demográfica, o atual processo de ocupação desordenado das terras pela especulação imobiliária constante favorece a erosão genética dos mangabais, compromete a sustentabilidade dos ecossistemas refletindo na redução da qualidade de vida do produtor rural. Para sustar esse processo, necessário se faz, o desenvolvimento de tecnologias e o melhor conhecimento das exigências edafoclimáticas da cultura, para sua preservação, sustentabilidade socioambiental e retorno econômico satisfatório ao produtor.

De acordo com o que foi exposto verifica-se que a mangaba constitui-se numa boa opção de exploração frutícola na sua área de concentração. Trata-se de um fruto muito apreciado e que faz parte de um segmento de mercado bem aceito e ainda pouco explorado.

Solos para um cultivo sustentável

Os Latossolos, Argissolos e Neossolos Quartzarênicos situados em áreas bem drenadas e sem adensamentos ou compactações são os solos mais frequentes nas áreas naturais e mais adequados ao cultivo da mangabeira. Dentre as características físicas do solo a textura, profundidade, aeração e drenagem são as principais exigências da espécie.

Dessa forma, os solos de textura arenosa pela maior porosidade permitem uma rápida infiltração da água e uma elevada taxa de oxigenação em pouco tempo após o término de uma chuva ou irrigação. No entanto, são mais sujeitos aos efeitos danosos de secas prolongadas, necessitando maior controle da umidade por meio da irrigação ou "molhação", principalmente se a falta de água ocorrer nos primeiros meses após o plantio. Já os solos areno-argilosos (textura média) permitem maior retenção da água, além de possuírem maior grau de fertilidade, em relação aos Neossolos Quartzarênicos, o que resulta no maior desenvolvimento vegetativo da planta e, consequentemente, em maiores produções. Os solos de textura argilosa, devido à menor porosidade e drenagem deficiente, são propensos a apresentar problemas de encharcamento restringindo o cultivo da mangabeira.

As principais unidades de solos nas quais a mangabeira ocorre e que são mais adequadas ao seu cultivo são:

Argissolos

Os Argissolos, em geral, apresentam o horizonte superficial arenoso tendo em comum um aumento substancial de argila em profundidade. São bem estruturados, profundidade variável, e cores predominantemente avermelhadas, amareladas e acinzentadas, a textura varia de arenosa a argilosa nos horizontes superficiais e de média a argilosa nos subsuperficiais; sua fertilidade é variada e a mineralogia, predominantemente caulinítica. Os argissolos ocupam terrenos de relevos mais dissecados estendendo-se numa boa porção dos tabuleiros da faixa litorânea.

São originados a partir de sedimentos argilo-arenosos do Grupo Barreiras, ocorrendo sobre os platôs costeiros da faixa úmida. Encontram-se sob domínio climático As’ da classificação de Köppen, com precipitações que podem atingir 1.600 mm anuais.

São solos com horizonte B textural, argila de atividade baixa, ácidos, com saturação de bases baixa, perfis bem diferenciados, profundos ou muito profundos e moderadamente drenados. Apresentam textura mais leve ao longo do perfil, sobretudo nos horizontes situados acima do fragipan (quando presente). O relevo é plano, podendo apresentar ligeiras ondulações e vegetação natural tipo floresta subperenifolia, ocorrendo também áreas de formações transicionais entre floresta e cerrado.

Nestes solos onde a mangabeira vegeta espontaneamente (Figura 2), a sua principal limitação é a baixa fertilidade natural, necessitando, portanto, de adubação para exploração comercial dessa cultura.

Foto: Ivonete Berto Menino

Pés de mangaba adultos no campo

Figura 2. Mangabal em Argissolo de textura arenosa no Litoral Sul da Paraíba. 

Unidades de Argissolos nos quais são encontrados mangabais no Litoral do Nordeste são os Argissolos Amarelos e Argissolos Acinzentados (Figura 3).

Fotos: Ivonete Berto Menino

Figura 3. a) Perfil de um Argissolo Amarelo distrocoeso latossólico; b) Argissolo Acinzentado distrocoeso fragipânico, João Pessoa, PB. 

Latossolos

Os Latossolos são constituídos por material mineral em avançado estágio de intemperização, muito evoluídos, como resultado de enérgicas transformações no material constitutivo. Os solos são virtualmente destituídos de minerais primários ou secundários menos resistentes ao intemperismo, e têm capacidade de troca de cátions baixa, inferior a 17 cmolc/kg de argila sem correção para carbono, comportando variações desde solos predominantemente cauliníticos.

Variam de fortemente a bem drenados, embora ocorram solos com cores pálidas, de drenagem moderada ou até mesmo imperfeitamente drenados.

São normalmente muito profundos, sendo a espessura do solum raramente inferior a 1 m. Têm sequência de horizontes A, B, C, com pouca diferenciação de subhorizontes, e transições usualmente difusas ou graduais. Em distinção às cores mais escuras do A, o horizonte B tem aparência mais viva, as cores variando desde amarelas ou mesmo bruno-acinzentadas até vermelho-escuro-acinzentadas, dependendo da natureza, forma e quantidade dos constituintes — mormente dos óxidos e hidróxidos de ferro, segundo condicionamento de regime hídrico e drenagem do solo, dos teores de ferro na rocha de origem e se a hematita é herdada dela ou não.

No horizonte C, comparativamente menos colorido, a expressão cromática é bem variável, mesmo heterogênea, dada a natureza mais saprolítica. O incremento de argila do A para o B é pouco expressivo ou inexistente.  De um modo geral, os teores da fração argila no solum aumentam gradativamente com a profundidade, ou permanecem constantes ao longo do perfil.

São, em geral, solos fortemente ácidos, com baixa saturação por bases, distróficos ou alumínicos, ocorrem em relevo suavemente ondulado a plano, profundos de textura variável média a argilosa, porosos, macios e permeáveis apresentando pequena diferença no teor de argila em profundidade, sendo comumente de baixa fertilidade natural.

As unidades de Latossolos (Figura 4) nas quais a mangabeira é mais frequente são o Latossolo Amarelo distrófico e o Latossolo Amarelo distrocoeso.

Fotos: Ivonete Berto Menino

Figura 4. Latossolos Amarelos Distróficos (a;b), no Município de Pitimbu, PB.

Neossolos

Estes solos são constituídos por material mineral, ou por material orgânico pouco espesso, que não apresentam alterações expressivas em relação ao material originário devido à baixa intensidade de atuação dos processos pedogenéticos, seja em razão de características inerentes ao próprio material de origem, como maior resistência ao intemperismo ou composição química, ou dos demais fatores de formação (clima, relevo ou tempo), que podem impedir ou limitar a evolução dos solos.  

São solos, medianamente profundos, pouco evoluídos, textura indiscriminada e ou arenosa praticamente em todo perfil, diferenciando-se pelo material de origem e paisagem constituindo as planícies fluviais formadas por sedimentos arenosos marinhos ou não.

As unidades de Neossolos nas quais ocorrem mangabais no litoral do Nordeste são o Neossolo Quartzarênico latossólico (Figura 5) e o Neossolo Flúvico Tb distrófico.

Foto: Ivonete Berto Menino

Figura 5. Neossolo Quartzarênico latossólico, no litoral Sul da Paraíba. Foto: Ivonete Berto Menino

Regista-se também, populações naturais de mangabeiras em Espodossolos e Plintossolos. Embora estes solos apresentem sérias limitações de uso associadas às suas características físicas e químicas tais como: presença de camadas de impedimento, drenagem imperfeita a má e baixa fertilidade natural.

Classes de aptidão agrícola

Com base em cada um dos fatores do solo e nas exigências edáficas da mangabeira foram indicadas as classes de aptidão agrícola: plena, moderada, restrita e inapta, levando-se em consideração a classe textural, drenagem do perfil, profundidade efetiva, fertilidade aparente, declividade, pedregosidade, rochosidade e erosão hídrica, visando o uso adequado do solo para uma agricultura correta e sustentável, bem como à conservação dos recursos naturais.

Textura do solo

Refere-se à proporção relativa das frações granulométricas areia (a mais grosseira), silte e argila (a mais fina) que compõem a massa do solo. Com base neste parâmetro, as classes de aptidão agrícola são apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1. Classes de aptidão agrícola para o cultivo da mangabeira com base na textura do solo.

Classe

Características

Boa

Solos em que até a profundidade de 200 cm, ao longo do perfil, apresentam texturas em que a quantidade de argila é maior que 150 g kg-1 e menor que 300 g kg-1 em uma das seguintes classes texturais: franco-arenosa; franco-argilo-arenosa

Moderada

Solos em que até a profundidade de 200 cm, ao longo do perfil, apresentam uma das seguintes classes texturais não ultrapassando 40 g kg-1 de argila; franco-siltosa; franco-argilosa, argilo-arenosa

Restrita

Solos em que até a profundidade de 150 cm, apresentam a textura franco siltosa ou silte, ou ainda conteúdo de argila de 400 g kg-1 a 600 g kg-1.

Inapta

Solos em que até a profundidade de 150 cm, apresentam a textura com mais de 600 g kg-1

Drenagem do perfil

As classes de drenagem do solo empregadas para classificação da aptidão podem ser observadas na Tabela 2.

Tabela 2. Classes de aptidão agrícola para o cultivo da mangabeira com base na drenagem do solo.

Classe

Características

Boa

Solos bem drenados (sem deficiência de oxigênio). 

Moderada

Solos moderadamente drenados (sem deficiência de oxigênio). 

Restrita

Solos moderadamente a imperfeitamente drenados (ligeira deficiência de oxigênio). 

Inapta

Solos imperfeitamente drenados a mal drenados (ligeira a forte deficiência de oxigênio). 

O lençol freático deverá estar a uma profundidade de no mínimo dois metros, permanecendo assim, mesmo nos períodos de chuva. Dessa forma, o sistema radicular pode se desenvolver em profundidade, não sofrendo falta de oxigenação em nenhum período do ano.

Profundidade efetiva

A profundidade efetiva do solo empregada para classificação da aptidão foram tomadas com base no Zoneamento Agropecuário do Estado da Paraíba (1978) (Tabela 3).

Tabela 3. Classes de aptidão agrícola para o cultivo da mangabeira com base na profundidade efetiva do solo.

Classe

Características

Boa

Solos muito profundos onde o substrato rochoso ou outro impedimento físico que ocorre no perfil do solo está a profundidade >200 cm

Moderada

Solos profundos onde o substrato rochoso ou outro impedimento físico que ocorre no perfil do solo está a profundidade de 100 cm a 200 cm

Restrita

Solos medianamente profundos onde o substrato rochoso ou outro impedimento físico que ocorre no perfil do solo está a profundidade de 100 cm

Inapta

Solos rasos onde o substrato rochoso ou outro impedimento físico que ocorre no perfil do solo está a profundidade de 50 cm

Fertilidade aparente do solo

Os primeiros trabalhos de domesticação da mangabeira abordam a sua pouca exigência quanto a fertilidade, em razão de vegetarem espontaneamente em solos de textura arenosa relativamente pobres, ácidos e com produções satisfatórias. Isso é possível em razão do seu sistema radicular explorar grande volume de solo, absorvendo água e nutrientes em camadas profundas do perfil do solo. No entanto, é reconhecido que a reposição ou suprimento apropriado dos nutrientes do solo é vital para o crescimento e desenvolvimento vegetativo das plantas. E, à medida que a mangabeira vem sendo incorporada ao sistema produtivo, observam-se maiores produções em solos de boa fertilidade quando comparados aos solos pobres.

Portanto, a baixa fertilidade dos solos cultivados com mangabeira permite apenas a sobrevivência dessa espécie, e sua exploração econômica está condicionada à existência de solos bem drenados, arenosos ou não; porém, ricos em nutrientes disponíveis. Só dessa forma, será possível a esta espécie expressar todo o seu potencial produtivo.

Deve ser observado um conjunto de características químicas que representam a capacidade de o solo suprir de nutrientes tais como: capacidade de troca de cátions (T); saturação de bases (V) e saturação com alumínio (Tabela 4).

Tabela 4. Classes de aptidão agrícola para o cultivo da mangabeira com base na fertilidade aparente do solo.

Classe

Características

Boa

Solos com boa reserva de nutrientes para as plantas, sem problemas de toxidez, devendo apresentar saturação de bases (V) ≥ a 50%; capacidade de troca de cátions (T) maior que 8 Cmolc/kg de solo; e saturação com alumínio menor que 30%

Moderada

Solos com razoável reserva de nutrientes para as plantas, devendo apresentar saturação de bases entre 15 e 35%; capacidade de troca de cátions (T) maior que 6 Cmolc/kg de solo; e saturação com alumínio entre 30% e 50%

Restrita

Solos com pequena reserva de nutrientes para as plantas, podendo apresentar algum tipo de toxidez que permite o desenvolvimento da cultura, mas reduz sua produtividade. Apresentam saturação de bases (V) < 15%; capacidade de troca de cátions (T) entre 4 e 6 Cmolc/kg de solo; e saturação com alumínio até 80%

Inapta

Solos sem reserva de nutrientes para as plantas, podendo apresentar algum tipo de toxidez para impedir o desenvolvimento da cultura. Apresentam capacidade de troca de cátions (T) < 4 Cmolc/kg de solo; e saturação com alumínio > que 80%

Declividade, pedregosidade, rochosidade e erosão hídrica

As classes de aptidão agrícola para o cultivo da mangabeira com base na declividade, pedregosidade, rochosidade e erosão hídrica do solo (Tabela 5).

Tabela 5. Classes de aptidão agrícola para o cultivo da mangabeira com base na declividade, pedregosidade, rochosidade e erosão hídrica do solo.

Classe

Características

Boa

Solos com condições favoráveis ao uso agrícola com declividades de 0 a 8%, quando ocorrem pedras ou rochas não ultrapassam a 2% da superfície ou do volume do solo superficial e não apresentam indícios de erosão visíveis

Moderada

Solos com condições favoráveis ao uso agrícola com declividades de 8% e 12%, quando ocorrem pedras ou rochas é sempre abaixo de 10% da superfície ou do volume do solo superficial apresentam erosão laminar ligeira

Restrita

Solos que por suas características físicas, apresentam restrições ao uso agrícola com declividades de ≤ 20%, ocorrem pedras ou rochas que variam de 10% a 20% da superfície ou do volume do solo superficial, apresentam erosão laminar severa ou em sulcos superficiais rasos.

Inapta

Solos que por suas características físicas, apresentam restrições fortes ao uso agrícola com declividade ≥de 20%, ocorrem pedras ou rochas que ocupam mais de 20% da superfície ou do volume do solo superficial, apresentam erosão laminar severa ou em sulcos profundos

 

 

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