Mercado e comercialização

Heribert Schmitz

Dalva Maria da Mota

Josué Francisco da Silva Junior

No Brasil, a mangaba, até os anos 1980, era predominantemente transformada em suco ou refresco, consumidos nas refeições ou nos lanches na esfera doméstica. Outros produtos eram confeccionados a partir do látex da mangabeira, como a borracha para o mercado internacional na primeira metade do século 20 e, em menores proporções, para os mercados locais; o leite da mangabeira com finalidade medicinal tradicional, feitio de capas de chuva e bolas para jogos e esportes indígenas.

Na atualidade, os produtos derivados da mangabeira comercializados podem ser agrupados em quatro grupos: os frutos in natura, as polpas (sucos e refrescos), os gelados (sorvetes e picolés) e os produtos de confeitaria (doces, biscoitos, bombons, licores etc.).

A comercialização dos frutos in natura predomina nas regiões Nordeste, Norte e em alguns municípios situados nos cerrados do Brasil Central. Nesses lugares, o fruto é vendido em diferentes espaços como centrais de abastecimento, mercados públicos, feiras livres, margens de estradas e rodovias e, nos últimos 10 anos, nos supermercados. A chegada dos frutos a esses espaços é decorrente das facilidades do seu transporte e acondicionamento. Os extrativistas predominam na venda dos frutos, mas são os denominados “intermediários” que abastecem os supermercados após comprar os frutos dos próprios extrativistas nos seus locais de coleta (Figura 1).

 

Linhas interligando os autores, representando as relações entre eles

Figura 1. Circuitos de comercialização da mangaba no Nordeste do Brasil.

Fonte: Mota et al. (2011).

Devido à quase ausência de áreas naturais de mangabeiras e cultivos, bem como à demanda crescente, o Estado de Pernambuco é responsável pela absorção de grande parte da produção de mangaba proveniente de outros estados do Nordeste, como Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas e Sergipe. Estes estados, além da Bahia e Ceará, também abastecem seus mercados consumidores internos.

Na Ceasa Recife, um dos maiores entrepostos de hortifrutigranjeiros do Nordeste, a comercialização da mangaba se dá no período de novembro a julho, com total ausência no período de agosto a outubro. Normalmente, na época da safra de verão no litoral do Nordeste (dezembro a abril), os preços dos frutos são menores pela maior oferta do produto.

Os preços praticados, no litoral do Nordeste, variam, em média ao longo do ano, de R$ 0,50/kg a R$ 1,50/kg e 2,00/kg ao nível de agricultor/catador.

O mercado de polpas congeladas de mangaba é o que mais cresceu nas últimas décadas e existe em todas as áreas de ocorrência de mangabeiras mediante a facilidade de uso, possibilidade de armazenamento congelado e conservação do sabor do fruto. As polpas são processadas em empresas de pequeno e médio porte. Os frutos processados são oriundos do extrativismo e adquiridos pelos “intermediários”, além de alguns poucos agricultores que cultivam. Restaurantes, lanchonetes e domicílios da classe média brasileira adotaram as polpas como item essencial de consumo.

Os gelados, assim como as polpas, também conquistaram segmentos expressivos de mercado. Inicialmente produzidos em pequenas sorveterias para o consumo local, foram popularizados pela iniciativa de grandes empresas no Nordeste do Brasil. Atualmente, sorveterias tradicionais se notabilizam nacionalmente pelo processamento de frutas nativas e nem sempre conhecidas nos lugares em que são consumidas. Do mesmo modo que para as polpas, os frutos são oriundos do extrativismo praticado pelos grupos tradicionais, mas comercializados em maior escala pelos intermediários.

Os produtos de confeitaria existem como iniciativas locais há décadas nas regiões produtoras de mangaba, principalmente geleias e compotas. Entretanto, há iniciativas associativas de mulheres extrativistas para a produção de bombons, bolos e biscoitos com padronização das embalagens e comercialização em espaços não tradicionais como shoppings, feiras e centro de artesanato, a exemplo do que ocorre em Sergipe. Os frutos in natura para o feitio dos produtos têm sido adquiridos frequentemente de outras extrativistas.

Outros tipos de comercialização se organizaram via a promoção de políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), no qual as mulheres extrativistas têm comercializado os produtos de confeitaria e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), no qual são comercializados os frutos in natura.

Em qualquer um dos modos de comercialização, a possibilidade de armazenamento, via refrigeração e processamento no formato de polpas, potencializaram os usos pelos novos modos de consumo de frutas frescas que provocaram uma abertura de mercados e a intensificação da comercialização em lugares onde os produtos não são nem conhecidos.

Coexistem na comercialização dos produtos oriundos da mangabeira três tipos de processos. A comercialização feita pelos próprios extrativistas em cadeias curtas, incluídas aqui as pessoas que têm acesso livre aos recursos, pequenos sítios ou via relações comerciais pouco formalizadas. Esse tipo de comercialização se dá nos municípios circunvizinhos e nas capitais cujas distâncias permitem o transporte dos frutos sem deterioração. Até pouco tempo atrás, os extrativistas não conheciam outros modos de beneficiamento das frutas além do amadurecimento que praticam pelo acondicionamento dos frutos em caixas revestidas de jornais ou tecidos para apressar o amadurecimento. O segundo tipo é a comercialização feita pelos intermediários para abastecer as processadoras. O terceiro é aquele caracterizado pelas cadeias longas nas quais o produto passa por vários atores até chegar ao consumidor.

Dentre os atores envolvidos na comercialização, chamam a atenção os extrativistas e os intermediários. Os extrativistas, porque são os responsáveis pela quase totalidade da coleta; e os intermediários, porque partindo de cidades maiores, saem recolhendo de forma organizada os frutos ou, eventualmente, as polpas nas casas dos extrativistas. Nos casos em que a demanda não é atendida, eles até organizam a coleta das frutas com trabalhadores contratados para esse objetivo, como em Goiás. Em todos os casos, há maior aprofundamento da divisão do trabalho entre quem coleta, quem vende e quem processa.

Nos últimos anos, com o maior acesso à energia elétrica no meio rural, intensificou-se a produção e o uso de polpas pelos próprios extrativistas, notável no Pará, onde, além de produzir e armazenar, eles entregam as polpas a domicílio.

A sazonalidade da produção dos frutos em todas as iniciativas tem sido contornada pela disponibilidade de polpas. Mesmo assim, há muitas iniciativas de domesticação da mangabeira em pequenos sítios e médias propriedades no Nordeste brasileiro.

A mangabeira tem alto potencial de ocupar uma parte importante da população rural por meio do extrativismo, da produção em cultivos e do processamento.

O mercado institucional da mangaba e dos seus produtos, além do efeito direto com os envolvidos no PAA e PNAE (preço melhor, garantia de mercado), tem um efeito estabilizador na região com a dinamização da economia. No entanto, um desafio a ser encarado é a padronização da qualidade dos produtos frescos processados que exige solução além da iniciativa voluntária dos que participam dos programas.

 

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