Importância socioeconômica

Dalva Maria da Mota

Josué Francisco da Silva Junior

Heribert Schmitz

Raquel Fernandes de Araújo Rodrigues

A mangabeira possui uma distribuição ampla no país, ocorrendo naturalmente desde o Estado do Amapá até São Paulo. Os maiores produtores são Sergipe (367 t), Bahia (105 t) e Paraíba (89 t) (IBGE, 2012), embora os dados estatísticos estejam subestimados em relação à real produção dos estados brasileiros. Pesquisas da Embrapa apontam uma produção muito maior em Sergipe (pelo menos 2.500 t), indicando que esse desempenho também deva ser maior nos demais estados.

A produção de mangaba no Brasil é proveniente quase que totalmente do extrativismo (Figura 1), praticado por grupos sociais pertinentes ao segmento dos denominadas povos e comunidades tradicionais que, no Nordeste, são constituídas, em sua maioria, por mulheres, que desenvolveram, ao longo de gerações, práticas de manejo aplicadas, sobretudo, às populações naturais de mangabeira, cuja venda dos frutos podem contribuir com até 70% para a composição da renda familiar. Em outras regiões do Brasil, os homens participam mais intensamente do extrativismo e a renda tem menor importância para o orçamento familiar. Em todos os casos, o extrativismo da mangaba faz parte de um conjunto de atividades como a coleta de produtos do manguezal, agricultura, pesca, assalariamento temporário e comercialização, distribuídas ao longo do ano.

Foto: Raquel Fernandes de Araújo Rodrigues

Dusa mulheres pesando frutos de mangaba em uma sala.

Figura 1. Produção de mangaba proveniente do extrativismo em Sergipe. 

Até os anos 1980, no litoral do Nordeste, predominou o acesso livre às mangabeiras em áreas devolutas e privadas. Naquele contexto, o consumo do fruto in natura e o uso do “leite” para fins medicinais e lúdicos (bolas para jogos de recreação) sobressaiam após o declínio do uso do látex para a fabricação de borracha a ser exportada no decorrer das duas guerras mundiais. Mais recentemente, o advento do processamento do fruto no formato polpas e o seu uso intensivo na indústria de sorvetes comercializados em todo o país, acarretou um processo de valorização que repercute na importância socioeconômica do fruto e na maior competição para o acesso ao mesmo num contexto de intensificação do uso agrícola das áreas. Assim, diversificam-se os modos de acesso às plantas com o declínio do acesso livre e o estabelecimento de parcerias e compra de frutos.

No litoral nordestino, parte significativa das áreas naturais que possuem mangabeiras estão cercadas pelos seus proprietários, com acesso proibido ou restrito aos extrativistas. As áreas cultivadas, ainda que poucas e de pequenos e médios proprietários, têm aumentado principalmente em Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia. Estima-se que somente em Sergipe, a área plantada seja maior do que 300 ha. Esse estado, bem como o Rio Grande do Norte e a Paraíba, destaca-se dos demais sob o ponto de vista do uso e aproveitamento da mangaba como parte da dieta da população local.  

Em Sergipe e na Paraíba, também foram criados projetos de assentamentos de reforma agrária e agroextrativista, onde as formas de coleta da mangaba são definidas pelo plano de manejo e onde se constatam iniciativas de ampliação das áreas plantadas com mangabeiras mediante o valor do fruto no mercado local.

A maioria dos extrativistas de mangaba é desprovida da propriedade da terra e, como tal, têm dificuldade para acessar os frutos das mangabeiras sob propriedade de terceiros. A consequência mais visível é a diminuição da importância econômica da fruta para a composição das suas rendas. Em contraste, a dinamização da cadeia com a intensificação do processamento da mangaba e facilidade de transporte possibilitou o incremento da renda dos que trabalham no setor de serviços, a exemplo dos que atuam no processamento da polpa e na venda de sorvetes em todo o Brasil.

Um dos principais problemas enfrentados atualmente é a devastação das áreas nativas, que tem promovido elevadas perdas de biodiversidade e dos recursos genéticos da espécie que levam à diminuição da produção extrativista. No litoral do Nordeste, diversos fatores têm contribuído para esse quadro, como crescimento urbano acompanhado de especulação imobiliária, cultivo de cana-de-açúcar, pastagens, eucalipto e criação de camarão. Os estados mais drasticamente afetados são Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Ceará, Bahia (oeste) e Sergipe. No primeiro, estima-se que mais de 90% da cobertura original com mangabeira tenha sido dizimada, embora seja uma fruta bastante relacionada à cultura local.

Recentemente, a importância socioeconômica da mangabeira tem sido também valorizada por iniciativas de políticas públicas que reconhecem oficialmente as extrativistas como grupos culturalmente diferenciados e as estimula por meio da criação de Reservas Extrativistas (Resex) e de Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS), capacitação para a produção de mudas, projetos para a realização de pesquisas pelas Organizações Estaduais de Pesquisa Agropecuária (Oepas), Embrapa e universidades, financiamento para processamento e comercialização dos frutos e divulgação na mídia da importância dos extrativistas para a conservação da biodiversidade.

 

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