Uso de microrrizas na produção de mudas

Eurico Eduardo Pinto de Lemos

Júlio Alves Cardoso Filho

A propagação de mangabeiras produtivas e com frutos de boa qualidade é bastante desejável para aumentar a produtividade dos pomares, mas essa etapa nem sempre é considerada fácil visto que poucas plantas sobrevivem nos viveiros ou em campo após o transplante. Os índices de mortalidade das mudas ou plantas jovens podem ser bem elevados passando muitas vezes de 50%.

Alguns trabalhos têm mostrado a dependência das mangabeiras à simbiose micorrízica arbuscular (MA). Esta simbiose é formada por fungos do Filo Glomeromycota que vivem no solo e associam-se às raízes das plantas num processo simbiótico no qual esses fungos recebem alimentos elaborados pelas plantas e em troca ampliam a capacidade das raízes na absorção de minerais essenciais, como por exemplo, o fósforo em solos pobres.

Várias espécies de micorrizas arbusculares nativas têm sido identificadas associadas às raízes de mangabeiras tais como Acaulospora longula, Glomus clarum, Gigaspora albida e Paraglomus sp. Outras espécies exóticas, tais como Gigaspora margarita e Glomus etunicatum, foram pesquisadas e testadas em mudas de mangabeira e formaram associações com bons resultados. Nesses trabalhos, a mangabeira mostrou-se dependente das micorrizas apenas sob baixos níveis de fósforo no solo. Em solos bem adubados com fósforo, a dependência da mangabeira foi reduzida. Várias pesquisas realizadas têm chegado à conclusão de que, em geral, a mangabeira responde melhor à inoculação com fungos micorrízicos do que a adição de fósforo.

Mudas de mangabeira têm demonstrado, na prática, excelente resposta à inoculação induzida de micorrizas arbusculares aumentando em até 75% a sobrevivência de mudas em condições de viveiro e campo após o transplante quando comparadas às mudas não micorrizadas. O seu uso, contudo, deve levar em conta o delicado equilíbrio dessa simbiose, que certamente irá custar à planta de 15% a 20% dos seus gastos energéticos. Mudas mais vigorosas, mais bem equilibradas suportam melhor o estresse provocado no momento de transplante e convivem melhor com os estresses do campo.

Para micorrizar mudas de mangaba, o agricultor ou viveirista deve recorrer a uma área onde existam mangabeiras nativas para de lá retirar um pouco de solo e isolar os fungos micorrízicos nativos que apresentem melhor resposta à associação com as mangabeiras.

A seguir, é descrito um esquema sequencial para a micorrização das mudas de mangaba no viveiro.

Coleta do inóculo

O inóculo consiste em se obter esporos dos fungos micorrízicos associados às mangabeiras adultas já existentes em uma determinada área de produção. O produtor deverá coletar um pouco do solo existente na linha de projeção da copa das árvores adultas onde estão as raízes mais finas e ativas. Deve-se coletar quatro amostras, cada uma com cerca de 2 kg de solo, em quatro pontos opostos, na profundidade que vai da superfície até 30 cm (Figura 1). O objetivo é retirar amostras de solo contendo raízes associadas a espécies de micorrizas e com isso os esporos ou “sementes” dos fungos que serão posteriormente multiplicadas. Os fungos assim obtidos através dos esporos, são geralmente de espécies nativas, que estão associadas às raízes da mangabeira.

Figura 1. Esquema de coleta de solo na projeção da copa de mangabeiras adultas para a produção de inóculo com micorrizas.

Fonte: Cardoso Filho (2014).

Homogeneização das amostras de solo coletadas

O total de amostras a ser retirado de uma determinada área vai depender do tamanho da área de coleta e da quantidade de mudas que se quer produzir. Cada 2 kg de solo coletado podem originar cerca de 20 kg de inóculo depois de multiplicado.

O solo obtido sob a copa de várias árvores é misturado para se fazer uma amostra composta maior e mais homogênea. Esse material servirá de base para se multiplicar os esporos das micorrizas antes de começar a produção das mudas de mangaba.

Desinfestação do solo

Antes de misturar o solo coletado das mangabeiras com o novo solo, é necessário que este último seja desinfestado. Existem várias maneiras de se eliminar ou desinfestar a maior parte dos microrganismos de um solo. Uma forma prática e de baixo custo seria “cozinhando” o solo, utilizando o calor do sol em um equipamento chamado solarizador. Dessa forma o solo fica exposto a temperaturas acima de 70 °C durante os períodos mais quentes do dia por cerca de três dias consecutivos, e com isso se consegue eliminar a maioria os fungos e outros microrganismos indesejáveis ao processo (Figura 2).

Figura 2. Processo de desinfestação de solo utilizando um solarizador.

Fonte: Cardoso Filho (2014).

Multiplicação das micorrizas

A multiplicação das micorrizas poderá ser feita em vasos grandes, colocando-se uma camada de 2 cm do solo coletado sob as mangabeiras sobre o solo que foi previamente desinfestado no solarizador. A razão de se utilizar solo desinfestado é para evitar que outras micorrizas existentes e não adaptadas às mangabeiras se multipliquem juntamente com aquelas que se deseja multiplicar.

Para multiplicar as micorrizas das mangabeiras, utilizam-se culturas armadilhas como qualquer espécie do capim Braquiária, que é de fácil obtenção a partir de sementes e de rápido crescimento. As sementes são plantadas em vasos com capacidade para 2 L próximas à superfície e regadas sempre que necessário sem encharcar o solo. O crescimento das raízes do capim irá estimular a germinação dos esporos das MA que crescerão e se multiplicarão associados a estas. Não se deve adubar os vasos para que o capim se mantenha dependente dos fungos. No entanto, caso as plantas apresentem sintomas de deficiência, recomenda-se adubar os vasos com fertilizante líquido bem diluído para não desestimular a cooperação micorriza-raízes.

Após 3 meses, as folhas do capim devem ser aparadas para estimular novas perfilhações e o desenvolvimento de raízes. Finalmente, 6 meses após o plantio, corta-se o capim bem próximo à base, descarta-se a parte aérea e suspende-se completamente a irrigação. Após a secagem do solo, todo o conteúdo do vaso contendo as raízes e o solo deve ser peneirado (peneira de 2,0 mm), visando à homogeneização do inóculo. Todo o material (raízes + solo + estruturas do fungo) que passar através da peneira será usado na inoculação das mudas de mangabeira (Figura 3).

Figura 3. Esquema de preparação do inóculo para mudas de mangabeira utilizando cultura armadilha com capim Braquiária.

Fonte: Cardoso Filho (2014).

Preparo do substrato para a produção das mudas

O inóculo produzido como descrito anteriormente pode ser armazenado por até um ano em sacos de plástico, em local fresco e seco. Ao ser utilizado, o inóculo deve ser bem misturado ao substrato em que irá se produzir as mudas na proporção de 30 partes do substrato para 1 parte do inóculo (30:1). Esta mistura deve ser posta em tubetes (230 cm³) ou sacos plásticos (17 cm x 22 cm) que serão utilizados para produzir as mudas. As sementes devem ser plantadas a uma profundidade de 1 cm a 2 cm e irrigadas sempre que necessário. A efetividade da simbiose dependerá das espécies de micorrizas coletadas que estavam associadas às mangabeiras e isso pode variar bastante.

 

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