Colheita e Pós-Colheita

Colheita

A colheita do algodão em caroço é de grande importância para a qualidade global do produto final, por isto deve ser feita com todo cuidado e no tempo certo.

O importante para uma boa colheita é colher o máximo, seja por meio da colheita manual, seja por meio da colheita mecânica, sem prejuízo do tipo e da qualidade do produto colhido.

A qualidade final da semente e da fibra do algodoeiro depende da tecnologia de pré-colheita, colheita e pós-colheita. É importante salientar que os métodos empregados nas duas últimas fases são fundamentais para a qualidade; deles também depende o tempo de armazenamento, importante fator no que se refere à comercialização do produto.

Pré-Colheita

Os principais fatores da pré-colheita que podem exercer influência na qualidade do algodão são as condições climáticas e o manejo cultural.
Sendo a fibra o principal produto do algodoeiro, suas características intrínsecas e extrínsecas são muito importantes, pois, para que o algodão seja aceito pela indústria têxtil como matéria-prima, deve apresentar um padrão mínimo exigido, baseado nas características tecnológicas da fibra.

As características tecnológicas da fibra, apesar de serem condicionadas por fatores hereditários, sofrem decisiva influência dos fatores ambientais conforme as situações de cultivo, alguns incontroláveis, como as condições climáticas, e outros passíveis de controle, como o manejo cultural envolvendo a fertilidade do solo, a incidência de pragas e o aparecimento de doenças, entre outros.

A irrigação, por possibilitar o cultivo do algodão na fase seca do ano, além de aumentar a produtividade, favorece a qualidade da fibra, pois evita os dias chuvosos consecutivos e temperaturas abaixo de 20 ºC, que retardam a formação e a maturação da fibra. A ocorrência de precipitações pluviais ou nebulosidade intensa na pré-colheita, quando os frutos já estão abertos, afeta a qualidade da fibra, que é reduzida substancialmente; os frutos que ainda não estão abertos apodrecem, reduzindo também a quantidade e a qualidade da fibra. Para evitar esses problemas, recomenda-se sincronizar a época de plantio com o ciclo da cultivar que se está utilizando.

O uso dos nutrientes tem efeito positivo sobre a qualidade da fibra. O nitrogênio é um dos nutrientes mais importantes; P, K e S são igualmente importantes. Deve-se atentar para a dose, a fonte e a época de aplicação de cada nutriente. A adubação fosfatada tende a aumentar o comprimento da fibra, enquanto a potássica melhora consideravelmente a uniformidade de comprimento, aumentando, também, o teor de celulose depositado na parede celular e, consequentemente, a maturidade. Esta exerce grande influência em outras características tecnológicas da fibra do algodão, como comprimento, uniformidade de comprimento e finura, proporcionando maiores valores às referidas características.

Ataques intensos de pragas, principalmente de ácaros, lagarta-da-maçã e bicudo, provocam a abertura prematura dos capulhos, prejudicando a finura e a maturidade da fibra e resultando em rebaixamento do tipo do algodão em caroço, tendo em vista a má aparência do produto. Uma das causas da pegajosidade da fibra do algodão (algodão-doce) - um problema internacional, que causa diversos prejuízos na indústria - é a incidência de pulgão e mosca-branca, insetos sugadores que excretam açúcares na planta durante a fase de frutificação do algodoeiro irrigado, contaminando a fibra, podendo levar à imaturidade e à redução da porcentagem de fibra. É preciso um controle efetivo dessas pragas no campo durante o cultivo, pois a irrigação, associada às altas temperaturas da época seca do ano, é favorável à proliferação desses insetos.

Cuidado especial deve ser dado, também, ao controle das ervas daninhas, pois elas, além de competirem com a cultura pelo substrato ecológico   que envolve água, luz, nutrientes e CO2 - podem interferir negativamente na colheita, constituindo-se em contaminantes e reduzindo o rendimento da colheita em si e o potencial das cultivares em relação às características da fibra, especialmente uniformidade de comprimento, finura e resistência.

Tipos de colheita

A colheita do algodoeiro pode ser feita manual ou mecanicamente. O tipo de colheita do algodoeiro afeta, decisivamente, a qualidade do produto.

Colheita manual

Existem alguns cuidados que devem ser observados na colheita manual, tais como: iniciar a colheita quando 60% dos capulhos estiverem abertos, realizando quantas colheitas forem viáveis; evitar colher capulhos com carimãs, plantas daninhas, maçãs verdes e outros produtos estranhos; não usar sacaria e amarrações de plásticos, para evitar contaminação por materiais, como polipropileno, inclusive as sacarias de juta e sisal. Na colheita manual, se bem conduzida, o produto pode atingir os tipos 4 e 4/5 (de ótima qualidade), que não exige muita pré-limpeza nem limpeza após o beneficiamento e, portanto, alcança melhor cotação no mercado.

Colheita mecânica

A colheita mecânica é fundamental na agricultura irrigada em escala comercial. É extremamente vantajosa em relação à manual, pois os custos operacionais são reduzidos, a colheita é feita com maior rapidez, o teor de impurezas é menor, evitando a presença de contaminantes, além da economia de mão de obra nas operações de recepção do produto colhido, pesagem e utilização de sacarias, o que inviabilizaria grandes extensões de cultivo.

No Brasil existem duas marcas de colheitadeira de algodão do tipo picker, constituídas, em sua maioria, de 5 unidades colhedoras que, em condições normais, colhem entre 15 a 17 hectares, equivalendo a uma produção de 4.500 @ a 5.100 @ de algodão em caroço, em uma jornada diária de trabalho.

Pontos importantes para se obter o máximo desempenho da colheitadeira:

  • Preparar e nivelar bem o terreno, que deve ser, de preferência, plano   não excedendo a 8% de declividade  , isento de pedras, tocos e sulcos de erosão.
  • Realizar a semeadura, de preferência em fileiras retas, proporcionando densidade uniforme entre 10 a 12 plantas por metro linear; a semeadora adubadeira a ser utilizada deverá ter o mesmo número de unidades colhedoras da máquina ou número múltiplo.
  • A cultivar deve ser de estrutura compacta, com tamanho homogêneo de plantas e de ciclo relativamente precoce, para proporcionar maturação uniforme por ocasião da colheita.
  • A adubação deve ser equilibrada, de acordo com as necessidades do solo e da planta, com vistas a se obter ótimos desenvolvimentos, maturação do cultivo e produtividade.
  • O controle de ervas daninhas deverá ser cuidadoso e eficiente, em virtude das dificuldades que elas impõem ao bom desempenho das colheitadeiras, além de depreciar a qualidade da fibra.
  • A aplicação de reguladores de crescimento é fundamental para se obter a altura ideal das plantas que favorecerá o bom desempenho das colheitadeiras, esta altura pode variar entre 1,0 m e 1,30 m; entretanto, como o algodão tem hábito de crescimento indeterminado, deve haver equilíbrio entre o crescimento (vegetativo e reprodutivo) e o seu desenvolvimento, que é de natureza sequencial. Os reguladores de crescimento atuam sobre o metabolismo da planta reduzindo o tamanho dos internódios, do número de nós, do comprimento dos ramos vegetativos e produtivos e da altura das plantas.

Desfolhantes e maturadores: são produtos utilizados para planejar e melhorar o desempenho das colheitadeiras na colheita do algodão, pois provocam, respectivamente, a queda das folhas e abertura dos frutos, uma vez que a presença de folhas verdes na planta provocará a contaminação com restos foliares, que aumentará a umidade e produzirá manchas de clorofila na fibra, afetando a qualidade do produto. Portanto, recomenda-se a aplicação de desfolhantes quando 60% a 70% dos frutos ou capulhos estiverem abertos, ocorrendo a desfolha 7 a 15 dias após a aplicação do produto. No caso de grandes áreas, recomenda-se fazer a desfolha de forma escalonada, compatível com a capacidade de colheita das máquinas.

Umidade ideal de colheita: a umidade adequada para se proceder à colheita é de 12%, com 100% dos capulhos abertos. Em áreas onde ocorre orvalho, recomenda-se começar a colheita pela manhã, quando o mesmo já houver secado, ou seja, entre 8h30 e 9h, e não deve ser prolongada até altas horas da noite, quando o orvalho já tenha começado a cair, pois é difícil colher algodão úmido com a colheitadeira.

Operador da máquina: a colheitadeira de algodão é uma máquina de funcionamento complexo e delicado, de grande tamanho e alto investimento, razão pela qual deve ser operada por pessoa capacitada e responsável.

Manual técnico: o operador deve conhecer a máquina, por meio da leitura e entendimento do manual de operação e manutenção, que revelam e especificam peculiaridades, como lubrificantes a serem usados, ajustes, regulagens, limpeza correta, conhecimento e manutenção da eletrônica embarcada, periodicidade de manutenção e reabastecimento de graxas, água/detergente do sistema de umidificação e o correto armazenamento após a safra, com vistas a preservar suas características originais.

Pós-Colheita

Armazenamento

São de fundamental importância para a obtenção de algodão em caroço de melhor tipo os cuidados que serão dispensados ao armazenamento temporário do algodão em caroço, tanto no âmbito de fazenda que utiliza alta tecnologia quanto no âmbito de produtor de base familiar ou do setor de maquinista (beneficiadores) do algodão.

No Nordeste, é comum o agricultor de base familiar, após colher o algodão, colocá-lo em locais de fácil acesso aos animais (gatos, cachorros, aves, etc.). Tal fato promove um dos piores contaminantes da fibra do algodão: pelos e penas, que passam pelas máquinas de beneficiamento e da indústria têxtil, somente aparecendo no final da industrialização, resultando em tecido defeituoso, sem valor comercial.

Em regiões em que ocorrem chuvas no final do ciclo da cultura, especialmente para agricultores de base familiar, recomenda-se que, após a colheita, o algodão seja exposto ao sol para melhor secagem; a umidade máxima permitida é de 12% e a mínima, 7%. Esta operação deve ser realizada numa área limpa, em terreiro, utilizando-se também encerado ou pano para não sujar o algodão. Após a secagem, que deve durar de um a dois dias, o produto deve ser colocado em sacos de algodão com amarras de algodão. Deve-se evitar prensar o algodão no saco, para não esmagar as sementes e surgimento de “neps”(minúsculos nós), que podem contaminar a fibra, prejudicando a qualidade. A secagem do algodão em caroço é indispensável, pois melhora o grau de limpeza e de cor, aumentando também a eficiência do beneficiamento.

O local em que o algodão será armazenado deve atender a algumas condições básicas, tais como:

  1. O leiaute do armazém deverá ser definido de acordo com suas dimensões, resguardando acessos que viabilizem a movimentação de empilhadeiras, recomendando-se corredores de 4,5 m.
  2. O depósito deverá apresentar portas contrafogos em todas as suas vias de acesso, para evitar a propagação de chamas (fenômeno de cavitomia), numa eventualidade, para outras dependências da usina e/ou da fábrica.
  3. O prédio destinado ao armazenamento de algodão em pluma não poderá ter qualquer instalação elétrica, como lâmpadas, tomadas e linha telefônica. Não deve ser permitido fumar nem usar telefone celular.
  4. A iluminação deve ser natural por meio de “domus”, e os depósitos deverão apresentar extintores de H2O.
Transporte e armazenamento do algodão para agricultores que utilizam alta tecnologia

Quando a colheitadeira está com o cesto cheio de algodão, com aproximadamente 180 @, ele deverá ser esvaziado em um reboque especial tipo basculante, denominado Bass Boy, no mesmo local em que se está colhendo, para evitar que a máquina tenha que sair da sua rota de trabalho, otimizando-se o tempo de serviço. O Bass Boy é constituído de um chassi, dotado de uma rodagem dupla e cesto confeccionado em tela e chapa metálica tracionado por um trator de média potência (80 cv). O serviço de Bass Boy consiste em receber o algodão da colheitadeira, carga leve, porém de grande volume, e transportá-lo até uma prensa compactadora e abastecê-la. A capacidade do Bass Boy é de pouco mais de 1 cesto da colhedeira, aproximadamente 200 @. Para descarregar o algodão na prensa, basta o operador acionar o hidráulico do trator e o cesto se elevará até a altura da prensa, por intermédio de dois pistões hidráulicos; em seguida, aciona-se outro comando para que um motor hidráulico movimente a esteira dosadora, que descarregará o algodão dentro da prensa, de forma uniforme e controlada. A área de algodão atendida por um Bass Boy é de 500 ha a 700 ha.

Prensa compactadora

A prensa compactadora tem a finalidade de confeccionar os fardões mediante compactação do algodão colhido. Apresenta configuração similar a de um caixão metálico reforçado, sem fundo, montado sobre pneus; suas laterais são reforçadas e, sobre elas e na parte superior, está vinculada uma estrutura que se desloca longitudinalmente, dotada de um pistão com uma macieira, para pressionar a massa de algodão em todo o compartimento. O acionamento da prensa ocorre por meio da tomada de força do trator, que aciona hidraulicamente o pistão, e de um motor hidráulico que comanda, por meio de correntes de roletes, o deslocamento da estrutura com a prensa. O operador da prensa situa-se em uma plataforma externa na parte dianteira da máquina, e o funcionamento ocorre a cada descarregamento do Bass Boy. Normalmente, são necessários quatro cestos cheios da colheitadeira para formar um módulo ou fardão, cujo peso médio é de 10 toneladas, podendo alcançar densidade de até 200 kg m-3. A área de algodão atendida por uma prensa compactadora é de 500 ha a 700 ha.

Formação dos fardões

Por meio de fardões é a forma de se armazenar a produção na própria lavoura, situando-os, de preferência, nas cabeceiras dos talhões, em local estratégico e de fácil acesso. Na confecção do fardão recomenda-se, antes de se limpar a área retirando-se os talos de plantas de algodão, colocar uma camada de 5 cm de brácteas secas (casquilhas de algodão) fornecidas pelas algodoeiras, para evitar que o fundo fique em contato com a terra e, consequentemente, sua contaminação. O fardão deve apresentar bom acabamento para evitar quebras nas extremidades quando da retirada da prensa e no transporte. A cobertura do fardão deve ser com lona plástica nova, envolvendo todo o volume, sem perfurações, para evitar entrada de água da chuva, e a amarração deve ser realizada com fios de algodão. Uma vez terminada esta operação, a prensa é deslocada a uma distância média de 20 m, onde começará a feitura de um novo fardão. A área de algodão atendida por uma prensa é de 500 ha a 700 ha.

Transporte da produção

Caso o beneficiamento se realize na própria fazenda produtora de algodão, os fardões ou módulos serão movimentados e transportados por um caminhão especial, chamado transmódulo; se for realizado por uma algodoeira prestadora de serviço distante da fazenda produtora, a movimentação dos fardos na lavoura ficará por conta do transmódulo, e o transporte caberá a uma carreta tipo prancha; portanto, a função do transmódulo é agilizar o processo de transporte dos fardões até a algodoeira. O funcionamento do transmódulo consiste em autocarregar a sua plataforma com o fardão, por intermédio de 11 correntes paralelas e roletes de apoio, transportá-lo a determinado lugar e descarregá-lo na prancha, no pátio da algodoeira ou na área de atuação da piranha. Para a carreta-prancha transportar o fardão, é necessária a interferência do transmódulo para carregamento e descarregamento na algodoeira. O transmódulo é um caminhão adaptado que contém uma plataforma de 11,3 m de comprimento, com capacidade de transporte de 10 toneladas. A área de algodão atendida por um caminhão transmódulo é de 2.000 ha a 2.500 ha.

Tempo de armazenamento

O período em que o algodão fica armazenado é muito importante para a qualidade da fibra.
Pesquisas realizadas pela Embrapa Algodão e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) com as cultivares de algodão CNPA-7H e BRS 187 8H sobre as principais características intrínsecas da fibra do algodão após 21 meses de armazenamento em Patos e Campina Grande, PB, confirmaram que:

a) O grau de amarelamento tende a aumentar, e o grau de reflexão, a diminuir, à medida que aumenta o tempo de armazenamento.

b) Entre o nono e o décimo oitavo mês de armazenamento, a fibra do algodão passou da cor branca para ligeiramente amarela e aos 21 meses tornou-se creme.

c) O tempo de armazenamento influencia o tipo da fibra do algodão.

d) A resistência tende a diminuir à medida que aumenta o tempo de armazenamento.

e) O micronaire tende a aumentar, ou seja, a fibra tende a engrossar à medida que aumenta o tempo de armazenamento.

f) As cultivares responderam de maneira diferente ao tempo de armazenamento. A fibra da cultivar CNPA-7H superou a da BRS 187 8H quanto ao grau de reflexão, grau de cor, tipo, comprimento Span Lenght 2,5%, resistência e micronaire; enquanto a da BRS 187 8H superou a da CNPA-7H no grau de amarelo e no índice de uniformidade. O efeito do tempo de armazenamento sobre o comprimento comercial das duas cultivares foi semelhante.

g) O local de armazenamento influenciou a qualidade da fibra. O algodão armazenado em Campina Grande manteve uma melhor qualidade de fibra quanto ao grau de amarelo, comprimento   Span Lenght e o comercial – da fibra, tendo esta característica tecnológica se mantido estável ao longo da armazenagem.

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3ª edição

Jul/2014

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